O bem-estar e o trabalho são dimensões fundamentais da realização humana. O primeiro está relacionado com a satisfação com a vida e com a capacidade de cada pessoa de atingir o seu pleno potencial; o segundo tornou-se, atualmente, uma necessidade quase inquestionável. A importância de ambas as dimensões é, de facto, reconhecida na Agenda 2030 das Nações Unidas, nos objetivos que visam garantir uma vida saudável e promover trabalho digno para todos [1].
Os dados disponíveis, no entanto, apontam para uma relação entre saúde, bem-estar e trabalho que está longe de ser harmoniosa. De acordo com o relatório «Trabalho e Saúde em Portugal – 2016», os trabalhadores portugueses referem que o seu emprego afeta negativamente a sua saúde com maior frequência do que a média da Zona Euro, revelando também uma maior prevalência de contextos de trabalho psicossociais adversos e de queixas musculoesqueléticas [2]. Nas estatísticas de bem-estar da OCDE, os inquiridos portugueses classificam a sua satisfação com a vida com uma média de 5,8 (numa escala de 0 a 10), abaixo da média da OCDE, que é de 6,7 [3].
Vários fatores contribuem para este quadro. A digitalização eliminou as fronteiras geográficas do trabalho, criando uma sensação de conectividade constante que prejudica o descanso e reduz a capacidade de autorregulação. A pressão pela agilidade e a multitarefa crónica acarretam um custo cognitivo real: uma pessoa demora, em média, cerca de 23 minutos a recuperar totalmente a concentração após uma única interrupção, o que tem um impacto direto na produtividade [4]. A privação do sono apresenta uma correlação negativa com o raciocínio lógico, a função executiva e a memória, podendo evoluir para ansiedade e depressão [5]. A exposição prolongada ao stress, por sua vez, tem um impacto mensurável na função cognitiva, afetando a atenção, a memória e a qualidade da tomada de decisões [6].
As implicações para as organizações são claras. Quando o bem-estar dos colaboradores é negligenciado, os custos associados ao absentismo, aos acidentes de trabalho, às baixas por doença e aos prémios de seguro tendem a aumentar. Quando, pelo contrário, o bem-estar é tratado como uma prioridade estrutural, verifica-se uma correlação positiva com o clima organizacional, a retenção de talentos, a satisfação dos clientes e a própria produtividade e rentabilidade da empresa. A questão que se coloca às empresas, portanto, não é se o bem-estar deve ser uma preocupação, mas sim se será abordado de forma estruturada e baseada em dados concretos ou se será deixado ao acaso.
É precisamente este debate, sobre saúde, confiança e sustentabilidade humana no futuro do trabalho, que estará no centro da 4.ª edição do @Happiness Camp, que regressa ao Porto a 24 de setembro de 2026 sob o tema «The Reset». A @Santa Maria Health School – Escola Superior de Saúde de Santa Maria participa nesta edição como parceira institucional, reafirmando o seu compromisso com a promoção da saúde e do bem-estar, tanto dentro como fora das organizações.

Daniela Simões
(Vice-Presidente da Santa Maria Health School – Escola Superior de Saúde de Santa Maria)
Referências:
[1] United Nations. Transforming Our World: The 2030 Agenda for Sustainable Development, Goal 8 — Decent Work and Economic Growth. [2] Monjardino T, Amaro J, Batista A, Norton P. Trabalho e Saúde em Portugal 2016. Porto: Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), 2016. [3] OECD. Better Life Index — Portugal. Organisation for Economic Co-operation and Development. [4] Mark G, Gudith D, Klocke U. The Cost of Interrupted Work: More Speed and Stress. In: Proceedings of the SIGCHI Conference on Human Factors in Computing Systems (CHI ’08), 2008, pp. 107–110. [5] Hyndych A, El-Abassi R, Mader EC. The Role of Sleep and the Effects of Sleep Loss on Cognitive, Affective, and Behavioral Processes. Cureus. 2025;17(5):e84232. doi:10.7759/cureus.84232. [6] Girotti M, Adler SM, Bulin SE, Fucich EA, Paredes D, Morilak DA. Prefrontal cortex executive processes affected by stress in health and disease. Progress in Neuro-Psychopharmacology and Biological Psychiatry. 2018;85:161–179. doi:10.1016/j.pnpbp.2017.07.004.Artigo redigido por Daniela Simões.

